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“Blade Runner 2049” (2017): Status cult para o filme que divide opiniões

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Após 35 anos, sensibilidade estética e filosófica marcam a sequência triunfante do clássico de 1982

Em 1982 chegava às telas de cinema o filme “Blade Runner: O Caçador de Androides”. Ridley Scott, diretor do longa, já era figurinha carimbada na época por assinar outro grande sci-fi, “Alien: O Oitavo Passageiro” (1979), e, assim, criando grande expectativa a cerca do seu novo trabalho. Estrelado pelo astro Harrison Ford (no papel do blade runner Deckard), o filme foi mal recebido pelo público e pela crítica no período do seu lançamento, mesmo com o estúdio modificando boa parte do longa como tentativa (frustrada) de deixá-lo mais compreensível e atrativo aos expectadores.

“Sensibilidade” talvez seja a palavra que melhor defina a sequência do clássico de 1982

A trama dessa sequência se passa trinta anos após os acontecimentos do primeiro filme. Aqui, acompanhamos o oficial K (Ryan Gosling, em uma ótima atuação precisa e sisuda), que acaba descobrindo um segredo com o potencial de mergulhar toda a sociedade no completo caos. A descoberta acaba levando-o a uma jornada, ao lado do seu par romântico Joi (interpretada por Ana de Armas, que rouba a cena com sua personagem carismática, delicada e apaixonante), pelo ex-oficial Deckard (Harrison Ford, em uma atuação singela, mas emocionante), desaparecido há três décadas.

“Sensibilidade” talvez seja a palavra que melhor defina a sequência do clássico de 1982. Villeneuve mostra aqui, mais uma vez, que sabe imergir o seu público tão bem nos primeiros minutos de suas narrativas que todo o resto da projeção transforma-se em momentos de pura contemplação. Tudo que está presente em tela parece tão cuidadosamente escolhido pelos olhos meticulosos do diretor, que a atmosfera criada para o filme é facilmente identificável com a do seu antecessor, mas não se limita apenas em fazer homenagens, indo muito além com a ajuda da fotografia primorosa de Roger Dikens, tornando-se importantíssima para a imersão do filme.

Outro quesito técnico fundamental para a construção da perfeita atmosfera do filme é a trilha sonora tocante de Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch. Em vários momentos, remetendo ao filme original, e, em tantos outros, ajuda, além de estabelecer, também a expandir o universo já familiarizado.

A montagem do filme talvez seja o ponto que mais vai dividir opiniões a cerca dessa sequência. Incomodando boa parte do público pelo seu ritmo bem lento, a montagem também se mostra, dessa forma, necessária no decorrer da trama, casando muito bem com a fotografia e a trilha nos (diversos) momentos de contemplação ao longo das suas 2 horas e 40 minutos de projeção.

Sendo assim, pelos pontos levantados e o roteiro (que, em determinados pontos, apresenta falhas, em parte devido a grande duração do filme) de Hampton Fancher e Michael Green, pode-se afirmar que “Blade Runner 2049” consegue transmitir muito bem a reflexão através dos conflitos de seus personagens e tocar o público exatamente onde a filosofia existencialista do filme demanda, para que, assim, possa ser sentida e compreendida em todo seu primor.

Não é a toa que, nessa sequência, é notável a ampliação da obra de Ridley Scott nos anos 80 e do livro na qual foi baseado “Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?”, do autor Phillip K. Dick, não somente em sua estética, mas nas questões filosóficas apresentadas, nas quais o original introduziu (de forma primorosa, diga-se de passagem) e aqui elas são aprimoradas no seu debate e esculpidas por novos questionamentos.

Afinal, o filme mostra uma perspectiva diferente da apresentada no seu antecessor. No filme de 82 (em sua versão Final Cut), a natureza do protagonista é apresentada praticamente nos últimos minutos de projeção, deixando para o público o papel de questionar suas escolhas na história que acabara de se encerrar. Em “Blade Runner 2049” temos a real natureza do protagonista apresentada nos primeiros minutos e, assim, as escolhas e os conflitos vivenciados por K são questionadas por ele mesmo durante toda a trama, e isso acaba transformando e elevando o debate estabelecido no filme anterior.

Dessa forma, ambos são um perfeito exemplo de continuidade e complementação na sua essência, transformando o arco dos dois personagens em uma experiência única e que acabam, eventualmente, se deparando com questões muito semelhantes, mas cada um com a sua própria perspectiva, seja sobre relacionamentos ou a cerca da sua existência e/ou propósito.

Além desses conceitos, o filme aborda vários temas que instigam o público a pensar a respeito durante toda a projeção. Por exemplo, conceitos existencialistas, que já foram apresentados no filme original (como a função das memórias), foram ampliados no filme de Vileneuve pela busca de um propósito através do poder das escolhas e do livre arbítrio. Além de questões religiosas, como a concepção de um milagre e a definição de alma, o filme ainda aborda temas bem atuais, como o preconceito, a luta de classes e o papel do próprio ser humano na terra.

“Blade Runner 2049” é um filme que deve ser visto na maior tela possível, por ser tecnicamente e visualmente impecável, mas que, além disso, deve ser visto também com sensibilidade, tratando-o com o cuidado e a delicadeza que exige uma discussão profunda como a existência da vida e da razão humana. O casamento perfeito entre estética e essência que um bom sci-fi (como é seu antecessor) demanda. Villeneuve, sua equipe e elenco presentearam o cinema moderno com uma experiência incrível, que tem sim alguns defeitos, mas que logo irão tornar-se pequenos e, até certo ponto, irrelevantes diante da sua grandeza. Assim como são lágrimas na chuva.

Nota: ★★★★★ (4.5/5)
Texto: Jordi Cruz – 7º semestre – Publicidade e Propaganda/UNI7
Fotos: Warner Bros.

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Comentários (2)

  1. Acho que Ryan Gosling fez um bom trabalho em tudos seus filmes. Trabalha muito para se entregar em cada atuação o melhor, sempre supera seus papeis anteriores. Adoro os projetos aonde ele participa. Ryan Gosling um ator que as garotas amam por que é lindo, carismático e talentoso. O filme Dois Caras Legais é um dos seus filmes mais recentes dele e ainda que não seja o melhor roteiro, visualmente nos limpa os olhos. Gosto dos filmes de acção e comédia. O ator é um dos meus preferidos.

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    • Concordo, Lucia! Ryan vem se mostrando, cada vez mais, um dos melhores atores dessa geração e a mistura perfeita de galã + boa atuação, que Hollywood tanto ama!

      Também é um dos meus atores preferidos 🙂

      - Responder

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