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AUSCHWITZ: Uma visita ao passado sombrio, como um grito de desespero

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Estudante de jornalismo da Faculdade 7 de Setembro (FA7) relata experiência de visitar o maior campo de concentração nazista durante a Segunda Guerra Mundial

 “ARBEIT MACHT FREI” (“O trabalho liberta”) está escrito no portão de entrada.  O “B” dDe “ARBEIT” está invertido. Acredita-se que foi uma forma de protesto dos prisioneiros que fabricaram o letreiro (Fotos: Caio Faheina)

“ARBEIT MACHT FREI” (“O trabalho liberta”) está escrito no portão de entrada. O “B” dDe “ARBEIT” está invertido. Acredita-se que foi uma forma de protesto dos prisioneiros que fabricaram o letreiro (Fotos: Caio Faheina)

Cracóvia era um dos destinos finais da viagem ao Leste Europeu. A cidade polonesa (considerada a capital cultural do país, embora haja quem diga que é Varsóvia) pluraliza em sua arquitetura. Antiga, medieval e atual. Esfuziante. Mas, a cidade vai além dos traços e desenhos. Cracóvia conta histórias de uma época de dor, hoje, impensável. Do roteiro previsto, a visita aos campos de concentração de Auschwitz I e Birkenau (Auschwitz II) seria o ponto mais alto. E foi.

Recebemos um radiotransmissor antes de a viagem começar. Como a quantidade de turistas por dia ultrapassa a casa dos milhares, grupos de até 20 pessoas são direcionados por um guia, que explica, em inglês, toda a história via rádio – que está na mesma frequência dos radiotransmissores. Assim, não perdemos nenhuma informação.

Auschwitz I
No portão de entrada, “Arbeit macht frei” (“O trabalho liberta”) nos dá boas-vindas de forma sarcástica. É difícil de imaginar a quantidade de SER HUMANO (ênfase nessas palavras) que foi enganada, torturada e, por fim, exterminada. Não havia trabalho. Não havia esperança. Se havia libertação, esta foi para outro plano, longe da tragédia em que se encontrava o mundo àquela época.

Erguido em 1940, Auschwitz, em princípio, tinha como objetivo concentrar trabalhadores forçados, na maioria poloneses, para a temerosa Guerra. Dois anos depois, o trabalho forçado tornou-se execução. A guia nos explica de forma sucinta, em seu inglês com sotaque polonês, o que acontecia. Os prisioneiros chegavam de trem e eram separados em dois grupos: os que iam para o trabalho forçado e os que seguiam diretamente para a câmara de gás. Não havia muitos critérios de separação. Os que se demonstravam fortes iam para o trabalho. Mulheres, crianças e idosos tinham outro destino.

No alojamento, os prisioneiros não tinham assistência para suportar o inverno polonês. Nenhuma roupa extra era oferecida. A temperatura podia chegar a -20°C. Banheiros, também, não tinham condições de higiene e privacidade (Fotos: Caio Faheina)

No alojamento, os prisioneiros não tinham assistência para suportar o inverno polonês. Nenhuma roupa extra era oferecida. A temperatura podia chegar a -20°C. Banheiros, também, não tinham condições de higiene e privacidade (Fotos: Caio Faheina)

A maioria dos prisioneiros morreu em Birkenau – Auschwitz II devido a maior capacidade geográfica de abrigá-los. Judeus, homossexuais, opositores políticos, soldados soviéticos e, espantosamente, alemães também foram vítimas dessa catástrofe. Além de temer a morte pela intoxicação do gás (Zyklon B), os prisioneiros lutavam contra a desnutrição, o frio, os trabalhos exaustivos e os mais macabros experimentos. Mulheres, principalmente, eram submetidas a experimentos para explicar o inexplicável: o porquê da quantidade de filhos, por exemplo.

As salas que abrigavam as vítimas, hoje servem de exposições. A cada passo, uma surpresa, um abalo. Sapatos (incluindo os de crianças), malas, roupas, utensílios domésticos, óculos, próteses e até fios de cabelos dos que já se foram são expostos no atual museu. Dos cabelos, tapetes eram confeccionados e vendidos a um preço que não se paga a vida. Nos corredores, fotos e informações de algumas vítimas.

Depois do percurso interno, fomos levados à câmara de gás, a parte mais esperada e temida da rota. Recebemos algumas informações antes de entrar. Ficar em silêncio em respeito à tragédia era a principal delas. A guia não durou muito tempo lá dentro. Imagino a dor de relatar, todos os dias, o que aconteceu ali a milhares de pessoas. Todos os dias.

A sensação de estar ali, dentro de uma câmara de gás que serviu de muro e morte para tantas vidas é emocionante. É impactante. É reflexivo.

Auschwitz II – Birkenau
Finalizando a primeira parte da visita, fomos levados de van – a viagem dura poucos minutos – até o segundo campo de concentração. Dessa vez, não havia radiotransmissor. Tínhamos que estar atentos e próximos à guia.

Grupo de turistas a caminho da câmara de gás. Fotos do local são proibidas (Fotos: Caio Faheina)

Grupo de turistas a caminho da câmara de gás. Fotos do local são proibidas (Fotos: Caio Faheina)

Os trilhos do trem tinham início no portão de entrada. Mais à frente, o trem que trazia as vítimas estava parado próximo a um dos postos de segurança. Fizemos o mesmo trajeto de quem ia à câmara de gás, hoje ruínas. Os destroços ainda estavam lá, cercados por correntes que impediam visitantes de se aproximarem. Ao lado dos escombros, placas de concretos estavam escritas em vários idiomas sobre o que havia acontecido ali. “Para sempre este lugar será um grito de desespero e de aviso à humanidade, onde os nazistas assassinaram cerca de um milhão e meio de pessoas. Homens, mulheres e crianças judias de vários países da Europa”, traduzindo.

Calcula-se que mais de 1 milhão e 100 mil foram mortos ali, a maioria judeus. Quando a guerra estava no fim, os nazistas evacuaram o campo e tentaram ocultar quaisquer vestígios do genocídio. Quando as tropas do Exército Vermelho invadiram o campo, menos de 10 mil sobreviventes foram encontrados em condições sub-humanas. Os vestígios permanecem vivos até hoje. Vivos como a rosa que encontrei nos trilhos.

 

Caio Faheina
5° semestre

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