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Essa coisa de cinzas

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Crônicas, Texto

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As primeiras pessoas que andaram por estas bandas decerto não estavam preparadas. Nem para o calor, nem para a quentura. Tem dias que Fortaleza é o interior de uma panela de barro, hábil em não deixar esfriar-se pela temperatura externa. Conservadora, habilidosa na preservação dos seus – ainda que o afago seja quente demais.

Claro que os tempos idos eram outros. Não existiam tantos carros a ocupar tantos viadutos que cortam tantas avenidas; como também não havia tanta fumaça saindo pelo buraco de tanta carruagem. Existiam mais troncos no lugar de concreto, mais terra no lugar de asfalto… Detalhes que, embora despercebidos no correr do dia, são imprescindíveis para a manutenção do inferno na cidade.

Advento tecnológico, aquelas revoluções de indústria, aquela gente toda migrando do campo pra cidade; o aumento da malha rodoviária, vinda de capital estrangeiro e consequente adensamento do mercado automobilístico no país, seguido pelo aumento de fumaça preta na atmosfera… Essas coisas que a gente aprende na aula de história: o atropelo da harmonia daqueles tempos que nos é ensinado ainda em sala.

Desde cedo também soube como eram as coisas em Fortaleza. Você, leitor, também deve conhecer a história do ‘’quando cheguei aqui, tudo era mato’’. Mato, matagal, mangue. Coisa verde, casa de tudo que é bicho; alvo de tudo que é vento… Essas coisas que fazem emudecer tudo que é sentido quando estamos a presenciá-las.

Nasci e já peguei o bonde andando. Essa gente mais nova tende a se acostumar depressa com a cidade grande. Sei como foram os dias porque fui assíduo ouvinte das histórias de seu Geraldo, meu avô. O homem sabia das coisas. Avós todos sabem muito das coisas. Nutrem pouca intimidade com Androids, iOS, QR Code, VR… Essas novidades de todo instante. Têm espaço reservado na memória para o que acontece de verdade, ali, no alcance da carne, da pele, dos olhos.

Entendo que a corrida pró-desenvolvimento teve ritmo urgente. Sei que utilizo alguns dos eletrônicos e serviços concebidos durante o trajeto. Fico encasquetado é com a abordagem, o tato, a leitura da situação para a implementação de tais avanços. Algo de imediato, individual; um correr sem linha de chegada, porque esta foi destruída no caminho… Essa coisa de criar mais, para cima e para os lados; para frente de tudo que, por sorte, não conhecera, até então, o que somos e o que estimamos fazer.

A anulação das demarcações, a venda das reservas para capital estrangeiro, a repetição da história que deu errado. Que está dando errado… Essa coisa de progresso que a gente vive, e que também se expandiu para dentro das vidas, das casas, dos dias; o progresso que é ligeiro, desgastante, corrosivo demais até para quem tem algumas idades nas costas largas: o progresso que queima meu país e não limpa o rastro de cinzas.

Crônica: Felipe Saraiva – (6° semestre – Publicidade)

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