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INDÍGENAS: A demarcação de terras sob o olhar de um estudante de Publicidade

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Entrevistas

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Rafael Moreira, aluno do curso da UNI7, falou sobre o impacto de ter ganhado o prêmio Gandhi enfocando o reconhecimento de luta da tribo Tapeba

Povo indígena localizado nos arredores de Caucaia, os Tapeba lutam, há anos, por reconhecimento de sua comunidade e a demarcação de seu território. Entre todos os esforços somados a essa etnia de mais de 6 mil integrantes, talvez eles não pudessem imaginar a integração de um aluno de Publicidade para dar visibilidade a suas lutas.

Graças a uma iniciativa social do jornal O Povo em conscientizar a sociedade dos preconceitos (ainda) cotidianos, o estudante Rafael Moreira, do 6º semestre Publicidade e Propaganda, da UNI7 (Centro Universitário 7 de Setembro) traduziu as três décadas de luta dos Tapeba em um produto de audiovisual de apenas 55 segundos. Objetivo, claro e conciso, como mandam as regras do jornalismo tradicional. Mas, ao mesmo tempo ilustrativo, envolvente e habilidoso em provocar empatia no espectador.

Rafael relembra momentos de sua convivência com os Tapeba, em Caucaia (Foto: Lucas Mota)

A combinação desses elementos rendeu a Rafael o Prêmio Gandhi de Comunicação, 2018, na categoria Estudante de Publicidade e Propaganda, da Agência da Boa Notícia, o primeiro de seu “pouco tempo na área”, como ele próprio admite. Ele conversou com o QUINTO ANDAR sobre a experiência de conviver em uma comunidade indígena e como o ramo da Comunicação pode ser aliado na visibilidade dessas questões.

QUINTO ANDAR: Como surgiu essa proposta de você fazer um vídeo sobre a demarcação de terras dos Tapeba?


RAFAEL MOREIRA:
A iniciativa partiu de uma proposta do jornal O Povo para a campanha Somos Todos Humanos que eles fazem anualmente e reúnem algumas instituições da cidade para fazer campanhas que envolvem essa temática de oprimidos, com a questão do preconceito, e que partiu quando aquele jogador Daniel Alves estava jogando e recebeu uma banana no estádio, então teve aquele racismo. Logo o pessoal começou a espalhar isso com uma hashtag #SomosTodosMacacos ou #SomosTodosHumanos ou algo assim, por conta do racismo que ele tinha sofrido. O jornal pegou isso e fez uma campanha com algumas agências grandes de Fortaleza, com essa proposta não só do racismo, mas também homofobia, e a gente pegou essa temática dos indígenas Tapeba, da luta deles pelo reconhecimento das terras – algo que já tem 30 anos, e daí que partiu esse trabalho que fomos fazer lá com eles.

Somos Todos Humanos from Rafael Moreira on Vimeo.


QA: Na época você já trabalhava no jornal O Povo ou era de alguma agência que eles solicitaram?

RM: Na época, trabalhava na Agência Brado, aqui na UNI7. O Povo foi como um cliente da Brado, então a gente fez esse “job” para o jornal. Meio que teve uma parceria entre as agências grandes que dão um suporte ao estudante nesse trabalho, teoricamente. Tinha acabado de entrar na Brado naquele semestre, em março se não me engano. Estava como estagiário de redação na Brado, como bolsista da UNI7.

Foi uma experiência muito incrível, são pessoas muito humildes e tem no rosto traços do sofrimento que eles vêm carregando há 30 anos.
– Rafael Moreira

QA: Qual foi a primeira impressão que você sentiu ao chegar na comunidade dos Tapeba e conviver com eles?

RM: Foi um trabalho de duas visitas. A primeira para entender o problema deles e conversar com eles. Fizemos uma visita e nos encontramos com algumas lideranças, não todas, pois eles estavam vivendo um momento de ocupação na sede da FUNAI (Fundação Nacional do Índio). Eles estavam querendo conversar com o Camilo (Santana, governador do Estado) justamente pela demarcação de terras. Então, todas as lideranças estavam lá, nessa ocupação. Cheguei lá e conversei com João
Kennedy, ele que já é da atual geração. Falou da luta em que os Tapeba convivem há 30 anos, desde os anos 80, pelo reconhecimento das terras deles e o que eles sofreram através desse tempo pelos posseiros de Caucaia, que foram tomando suas terras. Eram 36 mil hectares em 1980 e hoje são apenas 5 mil hectares reconhecidos no Diário Oficial da União. Felizmente, em setembro, foi uma coisa muito feliz, pois a gente percebeu essa luta e viu que era uma coisa muito sofrida mesmo. Fizemos essa primeira visita para desenvolver ideias mesmo, ouvir os problemas deles e depois a gente voltou para a agencia para produzir e criar. Na segunda visita fomos para produzir mesmo. No caso foram eu, o diretor de arte e a diretora de criação, que é a professora Moema Braga. Essa foi a equipe que foi fazer esse filme e foi bem reduzida. Eu como fotógrafo e a gente fez esse roteiro, deu para fazer legal, e conhecemos de perto. Fomos para a tribo, conhecemos a Dona Raimundinha, o Cláudio, grandes lideranças históricas dos Tapeba. Foi uma experiência muito incrível, são pessoas muito humildes e tem no rosto traços do sofrimento que eles vêm carregando há 30 anos. Dona Raimundinha era uma curandeira e o Cláudio é um pajé. Fizemos o filme com a participação deles e foi massa, pois eles foram muitos solícitos e não colocaram muito problema, pois eles querem mesmo ser ouvidos, querem expor o problema deles e deu muito certo.

Os Tapeba há 30 anos lutam pelo reconhecimento de sua etnia e seu território (Foto: Trecho do vídeo)

QA: Você conseguiu ver a reação deles ao assistirem o produto finalizado?

RM: Eles ajudaram bastante, foi uma facilidade enorme para fazermos esse trabalho. Eles gostaram muito. Não pude acompanhar muito da repercussão, mas o resultado eles chegaram a ver e gostaram muito. Antes de mandar para o jornal tinha que aprovar com eles, isso era uma necessidade nossa. O mínimo que podíamos fazer, pois era uma luta deles e a fizemos esse vídeo para as pessoas que estavam fazendo a ponte entre eles e a gente. Eles sentiram que era aquilo mesmo e nos incentivaram muito.

Rafael foi premiado na categoria Estudante – Publicidade e Propaganda (Foto: Lucas Mota)


QA: O Prêmio Gandhi tem para alguns uma visão de ser muito voltado a jornalistas. Como foi para você, um estudante da publicidade, receber esse prêmio?

RM: Foi esquisito, mas foi um esquisito bom. Eu nunca tinha ganhado um prêmio. Estou no universo publicitário há pouco tempo, dois anos, e foi um privilégio enorme. Uma surpresa incrível ter vencido nesse prêmio que representa muito e premia peças que promovem uma cultura de paz, isso é muito incrível.

QA: Você atuou em uma proposta diferente de um produto audiovisual que leva a cultura de paz. Acredita que na publicidade há ferramentas para se trabalhar essa cultura de paz nas mídias atuais?

RM: Sim. É uma responsabilidade muito grande que temos que promover. Mas é muito difícil também. A Publicidade é vista com maus olhos por quem está fora dela, “a profissão das pessoas que promovem o consumismo desnecessário”. Nós, dentro da universidade, temos que entender a nossa responsabilidade, o nosso poder, e temos que começar a mudar certos caminhos atuais da Publicidade. Já tem mudado muitas coisas ultimamente, mas a nossa geração vai partir para mudanças melhores. Espero poder fazer parte dela.

Texto: Jonathan Silva (4º semestre – Jornalismo/UNI7)
Fotos: Lucas Mota (2º semestre – Publicidade/UNI7)

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