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PERFIL: Um argentino em terras brasileiras

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Entrevistas

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O desejo de conhecer o mundo, foi o que motivou Luciano a deixar família e amigos em sua cidade natal, Salta, e se mudar para a capital cearense

Há quatro anos quando tomou a decisão de mudança, Luciano Garcia Bés, 36 anos, um homem calmo e tímido, de sotaque forte, não imaginou que fixaria residência e criaria tantos laços em Fortaleza. A escolha pela cidade aconteceu motivada pelo desejo de morar em um lugar que não fosse frio, que tivesse praia e que fizesse sol o ano todo. Salta, a cidade em que nasceu e morou durante a maior parte da sua vida, tem predominantemente o clima frio. “Não é que não goste de frio. Mas, só é bom se tiver neve. Se não tem neve, não gosto”, diz, categórico.

A vontade de viajar o mundo sempre foi uma constante na vida do argentino. A primeira viagem internacional foi uma “eurotrip” por alguns países europeus. Depois de juntar dinheiro durante os anos de universitário, se deu de presente a viagem. Como na Argentina não é costume fazer festa de formatura, a forma que encontrou para comemorar sua graduação foi viajando.

O que, em princípio, era uma viagem curta acabou se tornando uma trip de 45 dias pela Europa. Visitou cidades como Londres, Paris, Barcelona e Berlim. O roteiro foi escolhido de acordo com as cidades que tinha amigos residindo. Durante esse tempo, iniciou um costume que tem mantido na maioria das suas aventuras: o de viajar sozinho e sempre usar o site de hospedagens colaborativas CouchSurfing.

Com o passar dos anos, manteve o costume de realizar viagens, mas sempre querendo uma grande aventura. Até que em 2013, não tinha mais nada que o prendesse definitivamente na Argentina. Junto com um amigo porto-riquenho, planejou uma grande viagem. Com a Copa do Mundo chegando, o Brasil se tornou uma boa opção.

A cidade escolhida, no início, seria Natal. Mas, após a desistência do amigo, optou por Fortaleza. Foi quando começou a conversar com uma fortalezense que era amiga, de um amigo argentino. Ela conseguiu uma casa para ele ficar até se estabelecer na cidade. Isso foi o suficiente. Luciano chegou ao Brasil sem saber falar português e confiando na boa vontade de conhecidos virtuais.

O argentino em uma de suas praticas habituais: tocar violão (Foto: Arquivo Pessoal)

O risco no final valeu a pena. A sua primeira residência foi no bairro Damas e o que era pra ser uma estadia de duas semanas virou um ano e os desconhecidos, uma amizade que é cultivada até hoje. Quando chegou, lembra que teve muitos paradigmas quebrados. Desde a forma de o brasileiro cumprimentar as pessoas, com abraços, até no sentido mais puro da “amizade”.

“Aqui as pessoas se cumprimentam abraçando. No começo me sentia invadido. Pensava assim: ‘poxa, esse é o meu espaço pessoal’, relembra. No que se refere a amizades, diz que argentinos e brasileiros têm percepções bem diferentes. “Nós, argentinos, temos conceitos diferentes. Para nós, amizade é uma coisa muito séria. Lá, um amigo é até mais importante que um irmão. Aqui você conhece alguém conversa e já chama de amigo. No outro dia você passa e nem cumprimenta”.

Recorda que na infância, era exatamente o tipo de criança que hoje diz detestar. “Era muito chorão. Se queria uma coisa, chorava até alguém me dar”. Uma criança mimada pela mãe, que fazia todas as suas vontades. Foi somente na adolescência que o espírito de independência começou a aflorar nele. Aos 17 anos, depois que seus pais se divorciaram, ficou morando com o pai e os irmãos. Logo depois foi estudar em outra cidade e aí aprendeu a se virar sozinho de verdade.

Os amigos reforçam que a independência é de fato a característica mais forte dele. Atualmente, reside em uma casa no bairro do Benfica. Na andar de baixo moram os amigos mais próximos, dentre eles, o espanhol Alberto e a equatoriana Valeria. Morar em um dos bairros mais boêmios e centrais da cidade facilita muito a vida desse argentino que, apesar de gostar de sair, não ingere bebidas alcoólicas e nem fuma, gosta muito de ir aos bares, ver gente e observar a animação dos jovens. “Gosto muito do Benfica, principalmente pela localização. Aqui se pega ônibus para todo canto. É um bairro movimentado”, garante.

Analista de sistemas, trabalha há cinco anos fazendo sites na internet para o mesmo cliente, uma empresa americana. “Trabalho na minha casa para eles. Posso estar em qualquer parte do mundo trabalhando. A única condição é que a internet seja segura porque trabalho com cartões e senhas. De resto, posso estar em qualquer parte do mundo”. A partir desse trabalho, mais flexível que a maioria dos empregos normais, é que pode colocar em prática o seu desejo de se aventurar em viagens diferentes.

Algumas fotos de família de Luciano (Foto: Arquivo Pessoal)

Desde que fixou residência no Brasil, já viajou para muitos países da América Latina e Europa. Além de conhecer todas as capitais do Nordeste, cidades do interior do Ceará e cidades do Sul do país. Foi por meio dos mais diferentes destinos que surgiu uma oportunidade totalmente nova: a de documentar suas aventuras e compartilhar isso por meio de um blog. O “Sobre un viajero” surgiu em 2014 e é onde ele compartilha histórias de suas viagens e fotos com seus conterrâneos argentinos. O blog faz parte do jornal argentino online La Gazeta Salta.

Entre as histórias mais lidas está a que aconteceu durante a virada do ano de 2016 para 2017. “Estava voltando de um casamento no México e ia passar o réveillon dentro do avião. Comprei nesse horário porque tinha conseguido uma promoção. A minha surpresa foi ver que nada acontecia, nem as pessoas se cumprimentavam e nem era servido champanhe. Só quando aterrissamos foi que o piloto falou “feliz ano novo”. Foi um pouco decepcionante”, diz, aos risos.

Dos lugares que visitou no Brasil, a cidade preferida fora Fortaleza é o Rio de Janeiro. Esta seria uma boa opção de moradia. E entre as praias mais bonitas, na opinião dele, estão Jericoacoara e Pipa, no Rio Grande do Norte.

Quando o assunto são as diferenças entre brasileiros e argentinos, ele resume de forma sucinta: “O argentino é tango e o brasileiro é samba. Na Argentina é tudo tragédia, é uma crise todo ano. A música é uma lamentação. No Brasil, o país tá passando por uma crise também, mas as pessoas ainda são felizes, fazem festa. Não sei qual o pior, qual o melhor, mas são diferentes”.

Sobre a rivalidade entre argentinos e brasileiros no futebol, acredita que todos são irmãos latino-americanos, mas provoca: “Maradona é melhor que Pelé!”. Lembra que a única vez que sofreu algum tipo de hostilidade por ser argentino, foi quando um homem em uma festa chegou contando que não gostava de argentinos, e ele completou: “também não gosto, por isso fui embora de lá”. Segundo ele, o bom humor quebra os preconceitos.

Dentre as várias vivências em terras brasileiras, diz que recentemente foi convidado para participar de um filme sobre Che Guevara. Interpretou o próprio revolucionário e que, apesar de não ter tido nenhuma fala no filme, foi uma das experiências mais bacanas que viveu.

Outra grande experiência que viveu, desde que mora em Fortaleza, foi a de trabalhar com jovens carentes na associação Banco Palmas, no bairro Conjunto Palmeiras, onde formou três turmas de programação de computadores. “Aqui, conheci aqui três estrangeiros que trabalham lá. Um deles é o Assier, espanhol e chefe dos projetos. Ele me contou que fazia tempo que procuravam alguém para dar cursos de programação e que era muito difícil conseguir quem se disponibilizasse a isso. Porque ou é muito longe, ou é pouco dinheiro, ou é muito perigoso. Gostei da proposta e fui”. Ele diz que nunca pensou que um dia daria aulas, acabou formando três turmas, uma delas formada só por meninas da comunidade. Atualmente, esses alunos estão dando continuidade ao projeto e repassando os conhecimentos a diante.

Luciano em viagem pela Europa, em 2016 (Foto: Arquivo Pessoal)

Das suas maiores saudades, estão os sobrinhos e o irmão que moram em Buenos Aires. “Tento viajar pelo menos uma vez por ano para vê-los”. A sua última ida a Argentina foi no começo de 2017, para o aniversário do sobrinho que também é seu afilhado. Fotos grudadas na geladeira mostram o quanto Luciano é ainda apegado à família, mesmo estando há tantos anos longe. A última vez que foi a Salta, foi há três anos.

Revela que sente mais falta do costume de sentar à mesa e conversar com a família. “O argentino pegou muito do italiano, que tem um laço muito forte com a família e com os amigos. Na Argentina o que chamamos de sobremesa, é diferente do que vocês brasileiros chamam. Sobremesa é num domingo, depois do almoço ,todo mundo reunido na mesa sem nenhuma pressa e ficar conversando e contando piadas”, afirma, de forma saudosista.

Apesar de sentir falta de sua cultura, país e família, diz que não tem pretensão de ir embora de Fortaleza. Já pensou em ir embora e que a porta está sempre aberta, mas confessa que teve muita sorte. “Cheguei aqui e já fiz amigos, encontrei um bom lugar para morar. Não sei se quero largar isso e refazer tudo de novo em outra cidade”.

Segundo ele, nunca se sentiu tão argentino como nos últimos anos, desde que passou a morar no Brasil. “Nunca li tantos livros e ouvi músicas argentinas como nos últimos anos”, acrescentando que, além disso, também tenta se manter informado de tudo o que acontece em seu país e em sua cidade natal. Todos os dias, durante o horário que dedica a seu trabalho, escuta a rádio que costumava ouvir quando ainda morava em Salta.

Na sala da sua casa, além de uma cama para receber os amigos que fez em suas várias viagens ao redor do mundo e que de vez em quando vão visitá-lo, tem um mapa que mostra todos os países que já visitou. E as próximas viagens, já estão marcadas. Em setembro, viaja novamente para Argentina. Dessa vez para sua cidade, Salta. Convidado para o casamento de um parente, voltará à cidade natal depois de mais de três anos de saudades.

 

Texto: Sarah Sousa (8º semestre – Jornalismo)

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