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PERFIL: Uma francesa com alma de brasileira

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Entrevistas

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A história de Heloïse, uma estilista, surfista, apaixonada pelo mundo, por viagens, culturas e encontros

Voz fanha, sotaque pesado – que mistura português, francês e inglês em uma única frase – e o jeito inquieto de Heloïse Sara Amelie Hamot (lê-se Amô), tentam contar com detalhes uma longa história. Helô, para os íntimos, anuncia de início: “Não sei por onde começar”. E com o mesmo estímulo que dei no momento de nossa conversa, abro esta história. “Do começo”, disse eu.

Nascida e criada em uma fazenda nos arredores de Paris, capital da França, Heloïse, hoje com 31 anos, cresceu sob as rédeas de uma família conservadora. Primogênita da união entre François e Christine, um fazendeiro e uma professora, respectivamente. A irmã, Marion, chegou um ano e meio depois de Heloïse, e o irmão Gauthier, quatro anos mais tarde.

Heloise com o irmão Gauthier, na França (Foto: Acervo Pessoal)

A natureza sempre foi muito presente em sua vida. Andar a cavalo e construir casas nas árvores eram suas brincadeiras preferidas. Mas, a vida urbana era muito mais atraente. “Sou muito da cidade enquanto, tô muito ligada com a natureza. Essa é a mistura da minha vida, entende?” E completa: “seria incapaz de viver em um lugar onde não tivesse vida social”.

Ainda nova, sabia que seu lugar não era na fazenda. A influência da família sobre seu estilo era o principal fator desse sentimento de não pertencimento. Da escola, por exemplo, não gostava. A pressão paternal para ser a melhor da turma, contrastava com os cadernos cheios de desenhos. “Só escutando, lembrava das coisas, mas passava o tempo todo desenhando, desenhando…”, recorda.

A arte e o esporte sempre foram as inspirações da garota. Algo que seus pais não valorizavam. E o sonho de infância era ser professora de educação física. “Pratiquei muito esporte e sempre andei muito mais com meninos do que com meninas, fazendo mais coisas de menino como jogar futebol”.

Com o tempo, a relação com os pais piorou. Pessoa de personalidade forte, não entendia porque precisava seguir o padrão de ter um trabalho, se estabilizar e permanecer na França. Aos 12 anos, Helô e sua família foram para o Egito. O choque cultural foi como um alerta pra ela. “Ver as pessoas tão pobres e tão felizes, mexeu muito comigo”, lembra. Nesse momento, soube que viajar era o que queria. E viajar para locais mais pobres, especificamente.

Aos 14 anos, saiu de casa. A necessidade de independência e viver sem cobranças a levaram a 250 quilômetros de distância dos pais, para a cidade de Amiens. Segundo ela, muitos dos desentendimentos que tinha com os pais, eram gerados pela própria jovem para chamar atenção. “Sozinha fazia as coisas para mim, não tinha com quem me rebelar. Foi uma escolha muito importante para mim”, reforça. Para nós, brasileiros, sair de casa tão cedo parece estranho, mas Heloïse garante que, os franceses são criados para serem independentes. A escolha, então, foi bem aceita pela família.

No mesmo ano, quebrou o joelho pela sétima vez. Esta foi a primeira confirmação de que ser professora de educação física não era o seu destino. Na França, exige-se do profissional de educação física bastante condicionamento físico. E, em suas estripulias de criança, já havia quebrado o joelho seis vezes, o que lhe impediu de seguir por aquele caminho.

Na escola, a pressão sobre o vestibular começava a ficar pior. Diferente do Brasil, no sistema educacional francês, os alunos de ensino médio começam o segundo grau com matérias gerais e, ao longo de três anos, vão seguindo por áreas específicas de suas escolhas.

Científico, literatura e econômico eram as três opções de Heloïse. Ainda no sonho da educação física, ela precisava entrar para a área científica. Mas, além do péssimo estado de seu joelho, os professores eram um grande problema. “Dependendo do professor, se gostava dele ou não, ia estudar o material”, relata. E no ano decisivo, não gostava do professor de matemática. “Ele não me deixou passar no científico, que era para ser professor de educação física”, relembra.

Com o namorado Samuel, na França (Foto: Acervo Pessoal)

Com todas as dificuldades de morar sozinha e vendo seu sonho se perder, aproveitou o ano em que repetiu na escola para se esforçar. No mesmo período, precisou de uma roupa para ir ao casamento de uma prima. Como não gostava de vestir as mesmas roupas que outras pessoas, resolveu fazer o próprio vestido. O estilista que produziu a vestimenta da garota, percebeu o seu talento e a instigou para seguir a carreira de estilismo. “Ele me falou que desenhava muito bem, que tinha uma noção boa de moda e perguntou por que não queria ser estilista. E assim chegou à minha vida”.

A moda se tornou o seu objetivo. Ao final do ensino médio, com 17 anos, passou no vestibular. Mas, as inscrições para a faculdade começavam seis meses antes do que ela imaginava. E, mais uma vez, perdeu uma oportunidade. No ano seguinte, ingressou na faculdade de Artes, na cidade de Avignon, a duas horas de Paris. Fazia apenas para passar o tempo.

Em 2005, aos 19 anos, enfim, ingressou na ESMOD International, a faculdade de Moda, de Paris. “Pela primeira vez comecei a estudar uma coisa que me apaixonava e dessa vez me entreguei total”, recorda. Logo começaram os estágios na moda e ela percebeu as disparidades daquele universo. Trabalhando com Adam Jones, estilista francês, ganhava 300 euros por mês, o que, segundo ela, não dava para pagar nem a alimentação.

Como alternativa para garantir sua renda, a jovem começou a trabalhar em bares e restaurantes. Em uma noite, conseguia ganhar 100 euros e, no final do mês, conseguia manter-se. Mas, a jornada era cansativa. Trabalhava à noite e estudava de dia.

A francesa na companhia de amigos, na Austrália (Foto: Acervo Pessoal)

A cobrança por um trabalho e um corpo perfeito fez com que a francesa se sentisse insegura em relação à moda e a si mesma. “Tu trabalhas demais, tá sem dormir, não cuida do que come, porque eles vão cobrar as refeições. Então, você super cansada, não tem vida. E vai chegar na escola, teu professor vai dizer ‘ah! que merda é essa?’, lamenta.

No primeiro estágio após a faculdade de Moda, aos 21 anos, viu-se como um fantoche. Trabalhava 15 horas por dia, produzia coleção autoral que era vendida a preços altíssimos, mas não recebia o retorno devido. O esforço se transformava, de novo, em 300 euros, que não davam para nada. Magoada, decidiu que abriria sua própria marca.

Em 2008, iniciou bacharelado em Marketing no Conservatório Nacional de Artes e Ofícios. No final do curso, foi à cidade de Cholet para pegar o diploma de bacharel em Marketing. Chegando lá, descobriu que a cidade era o berço do design de sapatos na França, e havia uma escola específica para formação de especialistas em sapatos. Era o Instituto Colbert.

Uma das paixões de Heloïse, dentro da moda, são os saltos altos. O interesse por design de sapatos já existia, mas ela sabia apenas de uma escola desse tipo, na Inglaterra e não tinha vontade de ir para lá. Além disso, sua formação na escola de Moda em Paris era com especialização em alta costura, o que, na época, estava em declínio, pois o país passava por uma crise econômica. “Era muito difícil. Quem ia comprar um vestido de 15 mil euros?”, reflete.

Enquanto esperava o resultado da seleção para a escola de sapatos, a francesa veio ao Brasil, em férias, pela segunda vez. A primeira foi durante a graduação em estilismo, quando passou duas semanas tendo aulas técnicas de produção e costura, no Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac). “Nessa época, não falava nada de português”.

Em uma de suas visitas ao Brasil, no Rio de Janeiro (Foto: Acervo Pessoal)

De férias no Rio de Janeiro – o Brasil já fazia parte do seu futuro, como residência -, e a segunda experiência em terrar brasileiras, encontrou uma conterrânea, Lucile. A nova amiga precisava renovar o visto para permanecer no Brasil e pediu que Helô fosse com ela até o Paraguai, pois tinha medo de ir só. Sempre acreditando na bondade dos outros, nossa personagem seguiu viagem para o Paraguai. Logo que chegou ao país, odiou. Estava em julho, no inverno, e ela não gostava do frio, além de estar despreparada para o clima local.

Na volta, seguiram de barco até a Argentina, aproveitando o baixo valor do transporte. Em Buenos Aires teve todos os seus pertences furtados. Lucile a deixou só e voltou para o Brasil. Era 14 de julho de 2009, feriado na França e Helô não podia ligar para qualquer banco para tentar tirar o mínimo de dinheiro possível. Recorreu à embaixada francesa, na Argentina, e lhe sugeriram deportá-la para a França, mas isso era uma opção inexistente para ela. “Disse que não voltava pra França de jeito algum, porque morava no Brasil”, relata. E, em 15 dias, conseguiu um passaporte provisório.

Durante os 15 dias que permaneceu na capital argentina, encontrou um grupo de brasileiros que a ajudou com despesas, em um hostel. “Um dos rapazes me deu dinheiro e disse que assim que recebesse meu dinheiro, pagaria. Ele não aceitou e falou que quando encontrasse uma pessoa naquela situação, fizesse a mesma coisa que ele”, lembra com alegria.

Com os novos amigos, fez uma excursão pelo sul da Argentina, conhecendo Mendoza e Ushuaia, entre outras cidades. Na volta, passaram por Foz do Iguaçu, e matou a vontade de conhecer as Cataratas do Iguaçu. Depois seguiram até o Rio de Janeiro. De lá, continuou viajando de carona até chegar a Natal, capital potiguar, onde queria permanecer por um tempo. Foi então que recebeu uma ligação de Cholet. Havia sido selecionada para a escola de sapatos.

Heloise em visita à Canoa Quebrada (Foto: Acervo Pessoal)

Voltou para França onde fez o curso por um ano. Em 2010, voltou para Paris decidida a montar sua marca. Lembrou-se da época em que trabalhou nos bares e de um estilista em Bali, que um amigo havia indicado. Pelo Facebook, entrou em contato com Yaz, que na hora a convidou para ir trabalhar com ele.

Arrumou as malas e foi. Toda a estrutura necessária para montar coleções de sapatos ela tinha à disposição. Aos 26 anos, estava no emprego dos sonhos. “Ele me deu carta branca para fazer o que quisesse. Era como uma fada madrinha e varinha de condão”, conta. Além disso, se apaixonou pela cultura local e aprendeu a surfar.

Com o tempo, no entanto, Yaz foi se mostrando possessivo e queria controlar a vida da jovem estilista. Ele começou proibindo-a de sair, de produzir da forma como queria, de pagar o que havia prometido e até que ela tivesse um namorado. Sufocada, queria sair daquela situação. Temia por sua vida e estava ilegal, em um país onde estrangeiros não podem exercer atividade remunerada – pessoas que não são de Bali precisam do visto KITAS para trabalhar lá.

Na Indonésia já há praticamente oito meses, seu companheiro, na época, um brasileiro, sugeriu que voltassem para a terra natal dele e voltaram para o Brasil. Chegando ao Rio de Janeiro, onde o rapaz tinha residência, Heloïse conheceu uma pessoa completamente diferente. Ele também tinha comportamento possessivo. Helô logo terminou o relacionamento e se afastou.

Ainda quando estava na Ásia, conheceu uma moça de Aracaju pela rede social Instagram. Sozinha no Brasil, entrou em contato com esta amiga, Jéssica, e foi até à capital sergipana. Visitando alguns pontos turísticos da cidade, ela conheceu em uma feira de artesanato o trabalho de índios e se apaixonou. Ficou tão alucinada pela riqueza indígena que botou na cabeça de conhecer uma tribo.

Mesmo a amiga avisando que poderia ser perigoso porque a lei dos índios é diferente da lei que rege o Brasil, passou três semanas com os Cariris-Xocós. “Quando as pessoas viam que tinha interesse em conhecer a cultura deles, me chamavam para ir para a tribo deles”, lembra. De Sergipe, voltou para o Rio de Janeiro que, por coincidência, comemorava o mês da cultura indígena.

Heloise em viagem para Portugal (Foto: Acervo Pessoal)

Adentrando mais e mais no mundo dos índios brasileiros, viajou para o Acre, onde conheceu sete tribos diferentes. A mais marcante foi a dos Huni Kuin, que a nomearam de Tyshaa Awa. O nome “Tyshaa” remete a uma onça que via em seus sonhos, quando experimentou o chá de ayahuasca, conhecido em manifestações espirituais como Chá do Santo Daime. “Awa” foi acrescentado por eles, como referência a outras tribos que vivem na Amazônia. Para ela, a experiência com o chá foi uma espécie de limpeza de seu corpo e sua mente.

Da floresta Amazônica, voltou para a França. A mudança em sua personalidade, no seu jeito de se,r foi logo percebida pelos pais. “Eles disseram que eu era outra pessoa”. De sua rápida visita aos familiares, ela seguiu para a Austrália. “Em Bali, um cara me falou do Working Holiday VISA que podia ir pra Austrália, trabalhar por um ano e ainda ficar mais tempo”, explica. De novo, arrumou as malas e foi.

Em 2013, Helô passou quatro meses em Sidney procurando um trabalho. O estilismo não era fácil naquele país. Outro problema era a língua. Ela não falava nada de inglês. Na escola havia aprendido francês, espanhol e latim – este último contribuiu para que a aprendizagem de outras línguas fosse mais fácil. E, em Bali, aprendeu a língua local, a bahasa. Aos trancos e barrancos, aprendeu o inglês para conseguir se comunicar em Sydney.

De suas andanças pelo mundo, fez muitos amigos. De um índio brasileiro, seu amigo, recebeu o contato de uma mulher que era metade aborígene, e se chamava Lindsay. Quando se conheceram, a moça estava indo para Byron Bay, um paraíso natural da Austrália. Helô não perdeu a oportunidade e foi junto.

Novamente vivendo em um paraíso, com 27 anos, a francesa foi em busca de trabalhos. Seu objetivo era juntar dinheiro suficiente para montar sua grife. Em um dia entregou 15 currículos. Em uma hora tinha três empregos. Escolheu trabalhar como auxiliar de barmen no luxuoso Sofitel, um resort francês. Levou em consideração o tempo que trabalhou nos bares em Paris para ter destaque no novo emprego.

O responsável pelo bar do hotel, não deixava que ela preparasse drinks, apenas que lavasse os copos repetidas vezes. Como alternativa, aprendeu as combinações das bebidas sozinha, trabalhou a criatividade na criação e decoração do que era servido e chegou à posição de gerente do bar.

Whitsunday Island, Austrália (Foto: Acervo Pessoal)

Todos os dias conhecia gente nova, surfava, curtia o paraíso e trabalhava muito. Trabalhou até a sua exaustão. Depois dos anos que o visto permitia sua permanência no país, decidiu tirar férias. Férias do trabalho, férias de uma vida resumida em viagens. “Pensei: ‘Caramba, o que eu tô fazendo? Preciso parar e construir a minha vida. Não era a mesma coisa que tirar férias.Tinha uma vida de férias”, lamenta.

O descanso foi no Havaí, onde ficou três semanas. De tanto curtir e relaxar, acabou gastando todo o dinheiro que havia juntado trabalhando no Sofitel, e que estava destinado para a construção da sua marca. De volta à França, depois das férias, tentou se estabilizar em casa e criar sua empresa, mas não conseguiu. Viajou algumas vezes para Bali e Portugal, tentando diminuir os gastos com a produção de sua grife e acabou voltando ao Brasil.

Ainda “de férias”, tinha como destino a praia de Caponga, no litoral Leste do Ceará. Comprou as passagens e reservou o hotel, mas chegou a Fortaleza muito antes dos seus amigos. Por sorte, no tempo em que ficou em casa, na França, conheceu uma brasileira que lhe passou o contato de outra brasileira, a Didda.

Por redes sociais, Helô e Didda conversaram, trocaram telefone e logo se apaixonaram. Eram como irmãs. Quando chegou a Fortaleza, Didda fez questão de buscá-la no aeroporto. Ficou alguns dias na casa da amiga, até que seus outros amigos chegassem. Uma semana na capital cearense, conheceu Samuel, seu namorado.

Com o namorado Samuel Felipe, na França. Heloise e Samuel se conheceram em uma festa em Fortaleza (Foto: Acervo Pessoal)

“A Didda me levou na festa Sexta Blue e conheci o Samuel”, lembra. Depois de uma noite com troca de olhares e nenhuma atitude de ambas as partes, o rapaz tomou a iniciativa e foi atrás de Heloïse. Engataram um romance que durou apenas alguns dias. “Tinha apenas alguns dias a mais aqui, minha passagem de volta estava marcada e tinha que decidir se iria embora para o Caribe”.

Quando foi conferir o dia da viagem para o Caribe, percebeu que já havia passado o dia da viagem e ficou em Fortaleza. Mas, seu visto também estava perto de expirar e o relacionamento com Samuel andava complicado. “Se ele não se decidisse tinha muito homem no mundo ainda. Não ia me prender a ele”. Ela, então, voltou para a França e Samuel se deu conta de que não conseguiria ficar sem ela e foi atrás da amada.

Em Mulan, cidade ao sul da França, Heloïse estava com os pais quando Samuel chegou. Ficaram três meses viajando pelo país e retornaram ao Brasil. Hoje, eles vivem juntos na casa dos sogros de Helô. Depois de muito viajar, ela encontrou o seu lugar. Aqui, tem tudo o que gosta e precisa: clima quente, surfe e amor. A grife ainda não se concretizou, mas ela segue na procura por um trabalho para manter-se e para investir no sonho.

De suas experiências, guarda o conhecimento de outras culturas. “O que faz da viagem particular, é compartilhar as coisas com as pessoas e conhecer a diferença deles”, enfatiza. Além disso, tudo em sua vida mudou, inclusive a relação caótica que tinha com os pais. “Eles demoraram em entender meu estilo de vida, mas hoje é bem melhor”, comemora.

 

Texto: Ana Vitória Reis (8º Semestre – Jornalismo)

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