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JORNALISMO ESPORTIVO NA TV BRASILEIRA

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Uma síntese histórica do esporte na TV nacional e uma descrição analítica do programa Redação SporTV

Adailson Nogueira Silva
Curso de Jornalismo – Centro Universitário 7 de Setembro – UNI7

Introdução
Esporte também é notícia. Para isso existe o jornalismo esportivo. Esta área do jornalismo é uma das que mais preconceito sofreu, devido aos questionamentos sobre sua importância. Mas, ora, se existe uma grande parte da população interessada em saber sobre esporte, não há motivos para não estarmos aptos a oferecer informações sobre o assunto.

Há quem pense que jornalismo esportivo é apenas sentar numa roda de amigos e falar de futebol, já que para a grande maioria este é o único esporte que temos. Ao contrário do que pesam essas pessoas, porém, existe sim todo um trabalhar de técnicas, teorias, história e importância no jornalismo esportivo brasileiro. Se dermos um passeio pelas plataformas de jornais, veremos com destaque o esporte. Televisão, rádio, jornais Impressos, revistas, sites e blogs são alguns dos suportes que mais evidenciam a importância de tal área da profissão jornalística.

Cada vez mais vemos os pequenos espaços concedidos ao esporte dentro de programas maiores, deixarem de existir, pois vemos hoje programas esportivos de até duas horas de duração. Vemos cadernos inteiros dedicados ao esporte, programas e mais programas de rádio, fazendo transmissões, mesas-redondas, e cobrindo de maneira extremamente profissional os eventos esportivos no Brasil.

No cenário nacional temos veículos de comunicação muito influentes na área esportiva. Podemos citar alguns deles como, Rádio Globo, revista Placar da Editora Abril – provavelmente o meio mais influente -, sites como o Lance! e programas de TV. Essas diferentes plataformas que abrigam o jornalismo esportivo, mostram e evidenciam o interesse da população por esse tipo de trabalho e a sua importância pra sociedade.

De todos os programas e mídias, depois de passearmos pela história do jornalismo esportivo, veremos em foco a estrutura e analisaremos o programa Redação SporTV, debater sobre a forma como é feito.

Breve história do esporte no Brasil: preconceito e primeiros registros
“Futebol não pega, tenho certeza; estrangeirices não entram facilmente na terra do espinho.” Essa frase foi dita pelo célebre Graciliano Ramos, o autor de “Vidas Secas”, alagoano e reconhecidíssimo por suas obras. Provavelmente fora um dos primeiro palpiteiros no esporte do cenário nacional, apesar de ter sido também um dos comentários mais furados da história do futebol e segundo Paulo Vinícius Coelho (PVC), talvez o maior engano da história do esporte brasileiro.

Naquela época o futebol não era tido como um potencial para estampar as primeiras páginas dos jornais, nem mesmo o remo que era o esporte mais popular daquele tempo era visto com bons olhos em relação a isso. A importância não era dada ao esporte, os olhares de notícias eram outros. COELHO (2003), afirma: “Como poderia uma vitória nas raias — ou nos campos, nos ginásios, nas quadras — valer mais do que uma importante decisão sobre a vida política do país?”

Todos duvidavam de tudo naquela época, e o esporte então, era um dos maiores alvos. A desconfiança era nítida, para alguns. Jamais o futebol tomaria o lugar do remo no coração da sociedade brasileira. Um esporte vindo da Inglaterra, não poderia ser adotado pelo Brasil (e pensar que o Brasil hoje é quase que subordinado de outras culturas).

O jornalista e comentarista João Saldanha, quase no fim dos anos 60, fez também uma previsão meio desastrosa e que expressava uma imensa dúvida. Nessa época fora lançada, não um caderno de esportes como outros haviam feito, mas sim uma revista inteiramente dedicada ao futebol, a revista Placar. Nessa oportunidade, de acordo com PVC (2003, p. 8), essa figura que tanto prestou serviços ao esporte brasileiro falou que a Placar nunca sairia dos primeiros números. Erro drástico, pois hoje, é provavelmente o maior veículo de jornalismo esportivo impresso do Brasil.

Apesar da dedicação ao futebol, hoje maior esporte do país, ter começado apenas nos anos 20, alguns veículos já buscavam dar importância ao esporte em geral. Em meados de 1910, o jornal Fanfulla já continha páginas de divulgação esportiva. O público não eram as elites, mas sim um numeroso e crescente público da grande São Paulo, os italianos.

A partir daí e de um convite despretensioso, surge o clube de futebol Palestra Itália, hoje chamado de Palmeiras, e constrói um estádio conhecido como Parque Antártica, tudo isso em meio à Segunda Guerra Mundial. Até hoje o jornal Fanfulla é a grande fonte de pesquisa para quem quer saber mais sobre a história do Palmeiras e do esporte naquela época.

A primeira cesta no Brasil, o primeiro saque. Tudo foi registrado. Tudo meio a contragosto. Porque nas redações do passado  –  e isso se verifica também nas de hoje em dia  –  havia sempre alguém disposto a cortar uma linha a mais dedicada ao esporte. (COELHO, 2003, p. 8)

O telejornalismo e o esporte
O jornalismo esportivo começou a ganhar notoriedade e logo foi incluído nas programações de TV, mas para entendermos isso temos que primeiro compreender um pouco da história do telejornalismo no Brasil.

A televisão chega ao país em 1950, e consigo trás uma grande revolução na comunicação brasileira. Não demorou e logo a história do jornalismo nacional passa a ser sempre confundido com a história da TV. De acordo com Guilherme Jorge de Rezende (2000), o primeiro telejornal brasileiro foi ao ar dois dias depois do nascimento da televisão no país: Imagens do Dia. Este mesmo telejornal foi transmitido pela PRF-3/TV Tupi, Canal 3, de São Paulo, comandada por Assis Chateaubriand.

Naquela época, o dinamismo do jornalista Assis Chateaubriand dá um novo símbolo para o país com a inauguração da PRF-3/TV Tupi, Canal 3 de São Paulo, canal que transmitia para pouco mais de 100 televisores na cidade de São Paulo. (Mello, p. 1)

O país vivia, então, o surgimento de uma nova era no seu jornalismo. Logo, o esporte deveria ser incluído, pois agora se tornara mais atraente. Era possível ver e ouvir as transmissões e os comentários e o esporte começa a ganhar um pouco mais de espaço dentro do cotidiano social dos brasileiros.

“O esporte hoje é sim uma paixão brasileira e quase que faz parte do DNA do povo” (SILVA, 2010). Sendo assim, como não noticiar ou ter grandes espaços específicos a essa modalidade de jornalismo? Impossível. De acordo com Bezerra (2008, p.11), a editoria de esportes, apesar do preconceito, é uma das especialidades jornalísticas mais importantes e procuradas.

Desde que a TV chegou ao Brasil, o Jornalismo Esportivo teve seu espaço cativo, no entanto foi só com a transmissão ao vivo da Copa do Mundo de 1970 que o brasileiro passou a ver os programas esportivos como aliados inseparáveis da TV, foi um marco histórico para o país, a primeira vez onde os brasileiros puderam ver e ouvir detalhadamente os jogos de sua seleção de futebol. Nessa década (70), foram criados quadros e programas esportivos que sobrevivem até hoje, como “Gols do Fantástico”, o “Esporte Espetacular” e o “Globo Esporte”, todos da Rede Globo de Televisão. (SILVA, 2010 p. 2)

Hoje, dentro da TV, vemos uma mutação no jornalismo e o seguimento esportivo cada vez mais se desenvolvendo. Antes víamos apenas quadros ou pequenos programas que falavam apenas de esportes, porém atualmente já podemos ver programas de duas horas de duração, inteiramente dedicados a falar do esporte no Brasil e no Mundo.

Chama a atenção, o fato de que o jornalismo está em mutação, e no segmento esportivo encontra-se em estágio avançado de mercantilização, porque, como vimos, o esporte possui elementos fortes de espetáculo e aliado à televisão e às novas tecnologias produz um show de entretenimento. (BEZERRA, 2008, p.82)

Dentre esses vários programas que são produzidos e transmitidos na TV brasileira, temos um que é notório no cenário da TV fechada: o Redação SporTV. Por causa desse destaque, queremos fazer uma pequena análise do programa, discutindo sua forma e conteúdo.

Redação SporTV
O Redação é um programa do seguimento esportivo dentro do jornalismo brasileiro. Faz parte da grade de programação do canal de TV a cabo SporTV, canal que deixa implícito em seu nome sua total dedicação ao conteúdo esportivo e é transmitido no horário de 10h às 12h, de segunda à sexta e reprisado no canal SporTV2 no horário das 11h às 12h45.

O Apresentador
O comando do “Redação” é feito pelo jornalista André Rizek que antes trabalhou na revista Veja, onde assinou a matéria de capa em 2005 “Máfia do apito”. Colecionou também na “Editora Abril” quatro Prêmios Abril na categoria de esportes por quatro anos consecutivos (2004–2008).

André Rizek é, sem dúvida, parte fundamental do programa. Ele favorece as discussões lúcidas sobre esportes, feitas numa espécie de mesa redonda, com sua forte capacidade de argumentação e entendimento da ampla maioria dos esportes tratados no Brasil, principalmente o futebol.

Um detalhe que chama a atenção é a coerência de se escusar, quando não entende bem do assunto. A linguagem e abordagem do programa passam muito pelo seu apresentador, que é bastante coloquial, não trabalhando uma linguagem de difícil entendimento, como é pedido nos principais manuais de telejornalismo. Direto, conciso e claro, Rizek consegue transpor ao público toda a informação necessária sem perder riqueza de linguagem e conteúdo.

Convidados
O programa conta sempre com convidados especiais, sendo eles também na maioria dos casos jornalistas especializados em esporte ou personalidades que já vivenciaram o mundo esportivo e têm muito a falar. Alguns exemplos de convidados do programa são: Arthur Dapieve – formado em Jornalismo pela PUC-Rio e atualmente trabalha no jornal O Globo, Xico Sá – é um jornalista e escritor brasileiro cearense, nascido no Crato, foi colunista do jornal Folha de S. Paulo, no qual mantinha um blog diário no site folha.com, dentre outros muito renomados.

Conteúdo
O conteúdo do “Redação” é um dos melhores da programação esportiva da televisão brasileira, que muito tem se aproximado do entretenimento e da espetacularização da informação. Alguns dos motivos que nos levam a acreditar nisso são:

1- No programa, a maioria das notícias discutidas são as que foram dadas nas capas dos jornais nacionais e internacionais. Sim, a maioria das discussões vem das manchetes estampadas nas capas de veículos impressos ou eletrônicos, trabalhando assim uma convergência que já é mais do que real.

2 – O apresentador utiliza um notebook, por onde acompanha o roteiro e a participação dos internautas, sempre convidados a dar opinião por meio do Twitter, Facebook e o próprio site do “Redação SporTV”, fazendo assim o programa ser mais democrático, pois são lidas críticas e opiniões contrárias as dos jornalistas que estão à mesa.

3 – A variedade de quadros diferenciados dentro da programação, que tornam o conteúdo mais interessante, pois foge da mesmice dos programas de TV aberta, atraindo pra si um público mais centrado e dinâmico.

4 – A metalinguagem, que faz uma interpretação do próprio jornalismo, analisando e compreendendo. Isso quer dizer que, ao interpretar as notícias dadas por outros veículos, a mesa de jornalistas presente se dispõe também a analisar o fazer jornalístico da imprensa.

O diferencial do Redação SporTV é, sem dúvida, o uso da metalinguagem. Com o jornalismo tratando do próprio jornalismo, muitas vezes com comparações e análises das manchetes e textos, o programa convoca o telespectador a ‘abrir os olhos’ e abandonar uma visão restrita. (PORTELA, 2009, p. 2)

Programação
No programa, espaços são abertos através de janelas online, para jornalistas de todos os cantos do país, sempre tendo além das pessoas convidadas na bancada, a opinião de alguém que esteja no estado de onde a notícia veio. Um exemplo que pode ser citado é o fato de já terem sido abertas janelas com Fortaleza, para manter um contato com o jornalista Antero Neto, pois, na época, por estar mais perto, poderia dar informações mais precisas e fazer avaliações do conteúdo esportivo do Estado do Ceará.

O “Redação” conta com quadros que deixam o público atento, que são de fato interessantes e tem a capacidade de prender os telespectadores. Podemos citar alguns desses quadros:

“Abre Aspas”  – Quadro onde são reproduzidas declarações importantes sobre o universo esportivo e quase sempre discutidas pela mesa de comentarista ou debatedores. Esse quadro interessa ao jornalismo, pois muitas vezes as aspas são justamente em cima de perguntas feitas por repórteres no local.

“Redação AM”  –  Um espaço para o rádio dentro de um programa de TV, isso mesmo. Esse quadro faz uma ligação de momentos emocionantes dentro do esporte (geralmente futebol), mostra o vídeo da jogada ou do gol, por exemplo, e une a imagem a narração mais que emocionante do rádio, com radialistas famosos no Brasil e até de outros países da América do Sul. Essa interação mostra mais sobre a cultura da convergência e como foi possível os meios migrarem para dentro dos outros, um conteúdo em vários meios, é a chamada crossmídia.

O Redação SporTV como todos esses diferenciais é, sem dúvida, um dos destaques do jornalismo esportivo na televisão brasileira, produzindo um conteúdo único, original e com muita qualidade. Não ao acaso ganhou dois prêmios Botequim Cultural (2012–2013) como melhor programa esportivo, e concorreu em 2014 ao prêmio Melhores do Telejornalismo Nacional, na categoria Programa Esportivo na TV Fechada, ambos prêmios dados por votação popular e ganhou em 2016 o prêmio Melhores do Telejornalismo na categoria Produto de Canal Esportivo.

Considerações finais
Entendemos, a partir desse ensaio, que o jornalismo esportivo muito cresceu em meio a adversidades como preconceito e desconfiança, além de muita crítica e discussão entre ser ou não jornalismo. A TV foi o meio fundamental para a difusão desse seguimento jornalístico, alavancando uma paixão por esportes em todo ou quase todo o povo brasileiro.

A evolução chegou até nós e nos deu de presente um programa de conteúdo esportivo com muita qualidade que é o Redação SporTV, um dos programas mais influentes e de melhor conteúdo jornalístico dentre todos do cenário nacional. Programa que se utiliza de metalinguagem para associar, dentro da TV, outras plataformas como rádio, web e mídia impressa.

Programas de tamanho porte dentro da TV brasileira nos mostram que a discussão se esporte é notícia, não é tão empolgante assim. Afinal, o povo tem esporte no DNA, o povo gosta de esporte, o povo quer saber de esporte, então é dever do jornalismo oferecer informações apropriadas e de qualidade de acordo com princípios éticos, expondo a verdade em diversos pontos de vista.

Apesar do romance com o esporte que nos foi aflorado junto às crônicas do saudoso Nelson Rodrigues, esporte é jornalismo sério, e se confunde diretamente coma história da sociedade brasileira, trazendo consigo causas sociais e tabus que vem sendo quebrados no decorrer do tempo. A TV, ainda como meio de comunicação mais influente do Brasil, tem ajudado nessa propagação de valores por meio do esporte, desempenhando o papel do jornalismo como dever social.

Referências bibliográficas
BEZERRA, Patrícia Rangel Moreira. O Futebol Midiático: Uma reflexão crítica sobre o jornalismo esportivo nos meios eletrônicos. São Paulo, 2008. Dissertação (Mestrado em Comunicação)  –  Faculdade Cásper Líbero, São Paulo.
COELHO, Paulo Vinícius. Jornalismo esportivo. São Paulo: Contextos, 2003.
MELLO, Jaciara Novais. Telejornalismo no Brasil.
PORTELA, Maíra - Redação SporTV: A metalinguagem no jornalismo esportivo.
REZENDE, Guilherme Jorge de. Telejornalismo no Brasil: um perfil editorial. São Paulo: Summus, 2000.
SILVA, Alexandre Alves. De Léo Batista a Tadeu Schmidt: a evolução da nota coberta no telejornalismo esportivo. Tocantins. 2010.
http://casperlibero.edu.br/wp-content/uploads/2014/02/04-O-futebol-midiatico.pdf. Acesso em: 01/12/2016
http://www.bocc.ubi.pt/pag/bocc-mello-telejornalismo.pdf. Acesso em: 03/12/2016.
http://telejornalismo.org/wp-content/uploads/2009/10/Critica-Redacao-Sportv.-MAIRA.pdf Acesso em: 09/12/2016.
http://www.ufrgs.br/alcar/noticias-dosnucleos/artigos/DE%20LEO%20BATISTA%20A%20TADEU%20SCHMIDT.pdf. Acesso em 09/12/2016.
http://www.portaldosjornalistas.com.br/perfil.aspx?id=8746. Acesso em: 08/12/2016.
https://www.youtube.com/watch?v=eBBULvR1AIA. Acesso em: 08/12/2014.
http://botequimcultural.com.br/1o-premio-botequim-cultural-vencedores/. Acesso em: 22/12/2016.
http://melhoresdotelejornalismo.wordpress.com/. Acesso em: 26/12/2016.

 

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