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PERFIL: A rima que brota em meio aos carros do Mercado Central

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Reportagens

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No estacionamento, a figura de Jesus Rodrigues Sindeaux é um grito de poesia em verso. Sua banca traz a literatura dos cordéis e também as histórias de uma vida

O pequeno aparelho de som é companhia da cordelista (Foto: Naélio Santos)

Ali, no Mercado Central de Fortaleza-CE, embaixo de uma das escadas que dão acesso ao estacionamento, encontra-se ele. Já era quase hora de ir embora, mas a figura cheia de histórias e de conversa fácil não se opôs e nem resistiu a conceder uma entrevista. Não seria a sua primeira, “mas nem sempre a gente está inspirado. Se não estiver prestando, pode parar”. Jesus Rodrigues Sindeaux deixa avisado.

Rapidamente, troca o boné promocional de uma marca qualquer que usava em sua cabeça por um chapéu mais “arrumado”, no estilo Panamá, guardado dentro do balcão reversível onde expõe e vende cordéis seus e de amigos. O Poeta Sindeaux, de 69 anos, estava pronto para as perguntas.

A história com o Mercado tem apenas cinco anos. O período parece curto, mas foi suficiente para que Jesus Sindeaux, com toda sua energia e carisma, se tornasse parte daquele espaço. Ele é o Poeta do Mercado Central. Um grito da literatura de cordel em meio à diversas bancas de artesanato. Uma rima a se constatar em meio aos carros que entram e saem a todo instante. A movimentação automotor não incomoda, afinal, “já estou acostumado. Eu também faço zoada”.

Em baixo de uma das escadas, o Poeta vende seus cordéis (Foto: Naélio Santos)

A zoada neste caso é palpável. Trata-se de um pequeno aparelho de som usado para ecoar músicas do cordelista, que também é compositor. A estratégia é utilizada quando as vendas estão em baixa. São dois discos de gravação independente, um “musical” e outro de “cordel cantado”, ambos custam R$ 10,00.

O Poeta faz questão de colocar a canção “Menina linda” para tocar. Orgulhoso, não consegue somente escutar a composição preferida, logo começa a cantar ao vivo. “Todos aqui conhecem, é o Poeta. Ele coloca o sonzinho para tocar ali e a gente fica ouvindo a música. Não é lá essas coisas, mas dá para ouvir”, brinca Michael Lima, que trabalha numa banca próxima.

Antes mesmo da canção preferida acabar, alguém que vai subindo a escada do lado grita: “coloca aí, corno xerém”. Sindeaux justifica ser uma música do disco que a “turma gosta aqui”, mas que não agrada sua mulher em casa. A composição “Resposta pra corno xerém”, fala de traição. Ao reconhecer que não é cantor, o Poeta deixa claro seu desejo de ter uma canção regravada por algum artista, para divulgação de seu trabalho.

Atencioso, Poeta Sindeaux mostra ao cliente seus cordéis (Foto: Naélio Santos)

Apesar de arriscar rimas no ritmo musical, são nas folhas do cordel que Jesus Sindeaux se destaca. “Gosto muito de escrever imaginário”, diz ele. São histórias fictícias baseadas na vida cotidiana. A inspiração “vem de momentos”, mas não é tão simples escrever. “O cordel é mais fácil do começo até a metade, do meio para o fim dá um nó”. Nós já desatados várias vezes pelo Poeta do Mercado Central.
São cerca de 50 histórias rimadas em 8, 16 e até 24 páginas. Na banca, é possível adquirir alguns de seus cordéis, entre eles, “Vaqueiros Afamados na Pega do Barra Azul”, obra precursora da sua carreira de cordelista, e “As aventuras do valente Vicente Girão”, agraciado em 2010 com o Prêmio Patativa do Assaré de Literatura de Cordel.

Sindeaux faz parte da Associação de Escritores, Trovadores e Folheteiros do Estado do Ceará (Aestrofe) e cordéis de colegas associados também são vendidos no seu balcão. Os preços são variados: 3 por R$ 5,00, 3 por R$ 10,00 e até 12 por R$ 20,00.

“Não vim para ficar, mas acabei ficando” – Poeta Sindeaux

Pai de cinco filhos que são estudiosos, mas não são de ler cordel, Jesus Sindeaux está aposentado e sente-se feliz. A banca no estacionamento do mercado “é como uma terapia”. Nascido em Mombaça e criado em Pedra Branca, no sertão cearense, o poeta também é agricultor e até hoje tem um terreno na cidade onde cresceu.

Aprendeu a ler aos 11 anos e os únicos livros dos quais teve acesso foram os “folhetos” de cordel. “Na fumaça da lamparina”, após o dia de trabalho no roçado e enquanto seus irmãos dormiam, Sindeaux escrevia suas rimas. “Já nasci com o dom”, diz convicto.

O poeta rodou o Ceará divulgando seu trabalho e, para fugir da seca, veio morar em Fortaleza. “Não vim para ficar, mas acabei ficando”. Na capital, Jesus concluiu o “segundo grau” e trabalhou em churrascarias. Foi vigilante e servente de pedreiro. Como ambulante e cambista, conseguia vender também seus cordéis.

“Todo mundo gosta dele pelo jeito de conversar” – Lúcio Cláudio, fiscal

Após cinco anos vendendo seus “folhetos” no transporte coletivo de Fortaleza, Jesus Sindeaux encontrou descanso em meio à movimentação do Mercado Central. A Aestrofe intermediou a conquista do espaço usado. Com alegria e humildade, o Poeta atende seus clientes: professores, estudantes, idosos, turistas, amantes de cordel. “Todo mundo gosta dele pelo jeito de conversar. É uma figura aqui do mercado, gente boa”. A opinião do fiscal Lúcio Cláudio se repete entre os trabalhadores dali.

O sorriso no rosto dos clientes reflete o bom atendimento. O Poeta do Mercado Central ainda espera fazer sucesso e ter condições de fundar uma creche para atender crianças carentes do bairro onde mora, em Caucaia. Enquanto o sonho não se realiza, ele curte o seu momento. Lê cordéis, proseia e na cadeira preguiçosa ali do lado, tira alguns cochilos.

TEXTO E FOTOS: Naélio Santos (Concludente – Jornalismo/UNI7)

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