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PERFIL: Um lugar onde o cliente é convidado a voltar ao passado

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Reportagens

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Na calçada da casa, na Rua Vasco da Gama quase vazia, dado o horário, no bairro Montese, dois amigos dividem uma cerveja. Pergunto onde fica o Bar do Vinil… eles se olham e sorriem: “É aqui mesmo!”

Na entrada, um conglomerado de artistas (lembrados por pôsteres cuidadosamente colados nas paredes do bar) me recebe. Um corredor divide espaço entre mais fotos de artistas e um jardim improvisado [revelando que quando o bar fecha, ali volta a ser garagem e jardim], com mesas de plástico, dando os primeiros indícios de que ali funcionada sim, um bar.

No fim do corredor, um grande salão com mais cadeiras e mesas: brancas, amarelas e vermelhas. Ao fundo, um som rouco me chama atenção… O som da agulha tocando a superfície do vinil, não tem nada igual (tem som de infância). Era Belchior, falando da América do Sul, declamando sucessos de ontem e de hoje.

Pinheiro me cumprimenta meio apressado. Pede para que eu fique à vontade, que logo voltará para conversarmos. Escolho a mesa oposta ao balcão com as radiolas e observo o lugar. É algo mágico, um jogo de luzes no teto juto a um globo de espelhos, a luz baixa aos arredores do salão e no meio, uma clareira, é a parte mais iluminada do local, lembrando os cenários dos filmes antigos da sessão da tarde, com bailes de colegial.

Os garçons cuidam dos preparativos para noite que se inicia.

O primeiro cliente (da noite) chega e se acomoda a duas mesas da minha. O anfitrião anda pelo salão, preparando tudo para a noite que se encerra para alguns e começa para outros. Entre idas e vindas ele para e conversa comigo. Mostra orgulhoso, matérias feitas por jornais e revistas de outrora a respeito do bar, cuja história se confunde facilmente com a sua, afinal, são 23 anos do itinerante “Bar do vinil”. É assim que Pinheiro se refere ao bar, devido às inúmeras mudanças de endereço: Barra do Ceará, Henrique Jorge, Dedé Brasil, Planalto Pici, Parangaba e agora, Montese, onde funciona há dois anos.

“Gosto da música e o ambiente é diferenciado. Me sinto em paz! ” – Raimundo, cliente do bar

Enquanto Pinheiro organiza a mesa de som, me aproximo de Raimundo, o primeiro cliente daquela noite. Raimundo trabalha a poucos metros dali. É mecânico na Av. João Pessoa. “Frequento esse bar há pouco mais de um ano… Gosto da música que toca aqui, o ambiente é diferenciado (fala enquanto completa o copo com cerveja)… Me sinto em paz! ”

Nossa conversa é musicada por Bethânia. Entre uma frase e outra ele cantarola trechos das músicas.

— Tu acredita que tenho um amigo que mora aqui perto e tem até um estúdio desses, onde as músicas são gravadas…. Quando falei daqui, disse que não conhecia. E ele mora aqui perto, eu não acreditei! …. Aqui vem muita gente boa, muita gente jovem…. Você tem quantos anos?

– 25 anos. E você?

Raimundo gargalha…

– Ah, eu tenho um bocado de 25… Mas, não me sinto velho. A velhice vai da perspectiva que você dar para você e sua vida (toma mais um gole da cerveja.. Pensa um pouco). Não tenho essa perspectiva.

Raimundo sorri cada vez que um novo vinil é posto na antiga radiola, parece feliz por conhecer cada uma das melodias.

“Você cortou o barato do meu amor…. ♪ ♫”

– Eu adoro essa música. Ela acaba comigo!

– Qual o cantor? – Pergunto eu.

Ele me olha como se a pergunta fosse uma afronta:

– Eu nunca esqueceria… Benito de Paula, 1970. E volta a cantarolar a música: “Você é culpada do meu samba entristecer… Ah! Eu vou-me embora. ♪ ♫”

Ele vira o copo com cerveja que estava sobre a mesa, como se quisesse afogar as lembranças trazidas pela melodia. Despeço-me, ele me deseja boa sorte, enquanto pede outra cerveja.

No outro lado do salão, Pinheiro já está posicionado para mais uma noite de vinil, cercado por três radiolas, um microfone e prateleiras que formam um grande L à sua volta, repletas de discos de cera.

“Sou um apaixonado por música, não vivo sem. É essencial para mim” – Pinheiro Bahia, proprietário do bar

Enquanto guarda cuidadosamente o vinil que acabara de tocar a última faixa, ele me explica como surgiu a ideia do bar: “Sempre gostei de música. Quando cheguei em Fortaleza costumava sair muito com minha esposa para ir a barzinhos, tomar uma cerveja e tal… E aí decidimos juntar o útil ao agradável: música que gostamos e lazer. Já tinha muito disco guardado. Cheguei aqui em 1979 e trouxe todos eles comigo (Pinheiro é baiano e mora em Fortaleza há trinta e oito anos)… A proposta é manter vivo o vinil. Porque sou colecionador, mas não guardo. Gosto de mostrar para quem gosta de música. Então, foi uma maneira de mostrar o que temos para o público.”

Deixa eu colocar uma musiquinha aqui:

– Gal Costa não é que você gostou?! (Pergunta ele, apontando para uma cliente que, ao chegar foi recebida pela última faixa de outro vinil de Gal). Demora um pouco para se achar na nossa conversa, coloca agulha sobre o vinil e sorri, não sei se por satisfazer o desejo da cliente ou por ter lembrado onde parou na nossa prosa. Volta-se para minha direção e continua:

– O interessante é que o bar do vinil nunca teve placa. A minha ideia do bar não era juntar muita gente. Era juntar pessoas que gostassem de escutar música. E a divulgação sempre foi boca a boca. Hoje tem a internet que ajuda muito! Mas, estamos há pouco mais de dois anos aqui no Montese e acho que metade do público do bar ainda não sabe, estão sabendo, agora. Mas, há clientes que são seguidores mesmo. Toda semana aparece um que diz:

– Pô, você tá aqui, eu nem sabia!

(Pinheiro faz um sinal para Nonato, o garçom, que segundos depois se aproxima com uma cerveja e o entrega. Ele pede licença e se ausenta do balcão. Enquanto aguardo, Gal Costa me faz companhia: “Sua estupidez não lhe deixa ver Que eu te amo… ♪ ♫”)

Ao voltar, Pinheiro se desculpa por ter que se ausentar, e brinca:

– São os intervalos!

Pergunto o porquê de só abrir dois dias na semana e ele me explica que sempre variou de local para local: “Em alguns, locais abríamos a partir de quarta. Em outros, todos os dias”.

“Mas, tudo enjoa, né?! Então essa questão de colocar só dois dias deixa aquela “surpresa”. Porque são dois dias “beem” dois dias. Viramos de sexta para sábado e de sábado para domingo”.

“Manter funcionando todos os dias tira aquele gostinho de querer ver de novo. Percebi nessas minhas andanças com o bar do vinil que a surpresa é a melhor maneira de cativar o público. Se eu abrir de segunda a segunda, estraga!” Fala em meio ao riso. Pede licença novamente e toma outro gole de cerveja.

Nesse momento uma velha cliente se aproxima, reivindicando a altura do som:

Tava tão baixo que pensei que não tinha nem começado ainda!! Fala, sorrindo, enquanto cumprimenta o anfitrião. Ele apresenta a cliente e amiga: “Essa é Rivania, cliente do tempo da UECE!”

Rivania me cumprimenta e apresenta um amigo que trouxe para conhecer o bar, um novato, como ela diz.

Pinheiro o recebe como se recebesse um convidado em sua casa:

– Seja bem vindo à casa, fique à vontade!

A cliente de outros carnavais, já familiarizada com o ambiente, apresenta a coleção do amigo ao novato:

– Olha aí a coleção do “hômi”!

E o amigo desafia:

– Quero ver se ele tem Raimundo Soldado!

Rivania defende com propriedade:

– Óura, será se tem! … Olha aí, Pinheiro (rindo).

Enquanto Pinheiro se ausenta para mais um “intervalo” para cerveja, Rivania me conta como começou a “relação” com o bar do vinil… Quando pergunto há quanto tempo frequenta, ela fica pensativa. Está certa quanto à localização, mas não quanto ao tempo. Nesse momento, Pinheiro volta a nos fazer companhia e a ajuda a relembrar: “Foi em 2004, você ainda estudava na UECE!”. Juntos, os dois listam os endereços anteriores, evidenciando a fidelidade e amizade entre cliente, bar e proprietário.

Rivania se acomoda com os amigos em uma mesa próxima ao balcão. A essa altura o salão, antes vazio, já está repleto de casais e grupos de amigos.

Pinheiro continua a conversar comigo, mas agora, distraído, procurando um vinil em meio às prateleiras:

– Só um minuto pra eu atender ao pedido desse rapaz aqui. Refere-se ao “novato” que chegou com Rivania e o desafiou pedindo Raimundo Soldado.

Quando encontra o vinil que procurava, vem em minha direção sorrindo. O coloca na radiola e observa a reação do novato, como se gostasse da expressão de surpresa dos clientes que o desafiam.

Quando pergunto o que ainda o motiva nesses vinte e três anos, o colecionador não pensa duas vezes para responder: Sou um apaixonado por música, não vivo sem. É essencial pra mim. Juntei o lazer ao que gosto. E apresento isso para o público porque não adianta ter uma coleção e esconder. A ideia é difundir e manter vivo o vinil.

TEXTO: Mairla Freitas (7º semestre – Jornalismo/UNI7)
FOTOS: Beatriz Boblitz

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